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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Aguenta com esta, ó Ulrich!

"Se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos?" - Fernando Ulrich, presidente do BPI

Não fosse esta frase ser totalmente descabida e de um nojo inexplicável, tinha passado despercebida por entre as várias asneiras que o senhor tem dito nos últimos tempos.

É preciso fazer-lhe recordar que estamos em pleno século XXI. Sei que a sua área profissional pertence à economia e às finanças, o que em senso comum lhe chamamos de «números», mas já alguma vez ouviu falar de um documento importantíssimo chamado "Declaração dos Direitos do Homem"? Eu sei que não pertence à área das letras, e que não faz nada o seu género, mas no artigo 2.º desta declaração explicitam-se, muito claramente, direitos que a todo o ser-humano pertencem e que o senhor não se deve ter lembrado (será que alguma vez ouviu falar?) quando literalmente os atropelou na sua intervenção. Pois se não se recorda, passo a citar: "Art. 2.º (...) Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão".

Estará recordado agora? É que propriedade é um direito. Como ousa referir os sem-abrigo como exemplo de equilíbrio para a economia portuguesa? O uso que deu à condição de sem-abrigo deveria ser punida, pois o senhor está a querer colocar todos os cidadãos portugueses na mesma situação, sem um pingo de vergonha, em vez de ajudar com os brutais milhões de lucro que obteve com os juros dos impostos que os portugueses pagaram e pagam todos os dias para que o seu banco estivesse hoje recapitalizado e em alta.

Só pode estar a ter alucinações. Pois eu tenho a solução para o seu problema. Já que não se importa de aguentar a austeridade, sugeria-lhe que realizasse uma espécie de intercâmbio cultural. O primeiro passo poderia começar por dividir o seu mísero salário com todos os sem-abrigos e, em seguida, oferecer-lhes o seu tecto. E para que fosse uma experiência mesmo à séria, passaria a dormir ao relento, ao frio e à chuva, procurando comer pelos latões do lixo da cidade. Parece-me inesquecível, e vejo que está cheio de vontade de se aguentar à bronca. 

Pois força, de certeza que todos o apoiariam. Só não se esqueça de uma coisa ainda mais importante que tudo isto: durante esse intercâmbio pelas ruas de Portugal, aprenda a ser humilde e, sobretudo, a não dizer nem pensar mais asneiras destas.